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Entre a terrível decepção e a concretização de um medo que ela guardava, apesar da esperança de que a bondade prevalecesse, que o carinho que dera ao filho o colocasse em uma trajetória livre de fantasmas e da herança maléfica de sua origem, Alison se deparou com a angústia inimaginável de ter criado um ser tão perverso, daqueles que apresentam a face humana ao que culturalmente representamos como o mal, quase um mal metafísico, para além do humano. O pior choque deve ser a consciência de que nada existia em Daryl para além da capacidade humana de fazer o mal. Não havia as vozes das quais ela de forma tão esperançosa buscou saber. Não adiantou isolá-lo de más influências. Resta a condenação eterna pelo que fez, aquela que ela mesma se aplicou, aquele arrependimento que sempre nutrirá, o sentimento de fracasso, rancor, desengano perante o que viveu, perante o que o universo lhe deu.
Alison é o que Catherine sempre temeu se tornar. Ela guarda o medo tão profundo, que sempre terá agarrado sobre si, de que crie um perverso. Teme que a maldade seja metafísica e esteja impregnada nos genes de Ryan, o filho do estuprador. Teme que haja um destino e que ele lhe seja tão cruel quanto foi para Alison. Por isso ela não conhece a paz, por isso ela não se dá ao direito de permitir que outras maldades aconteçam no mundo estando de braços cruzados. Porque pensa que seus atos de bondade podem garantir ao seu neto um espírito puro. Espero que Happy Valley venha para nos mostrar que o que molda o caráter, o que alimenta o espírito é o amor que ele consegue enxergar e acolher. Espero que assim Ryan veja, através de sua avó, de sua coragem.
A segunda temporada conseguiu ser melhor que a primeira nessa reta final, com os casos de John e Daryl. Happy Valley até aqui nos ilustra que há espaços para duas concepções sobre o mundo: aquela que mostra não haver maniqueísmos em nada; aquela que mostra algo de permanente na natureza do mundo, como se houvesse males, assim como há faces da bondade, que superam qualquer ideia relativizadora sobre nossa existência. Lembra o símbolo taoísta, a dualidade.
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