 |
Sim Rafael, no processo de fazer com que Gileade fosse uma “sociedade distópica”, todas as pessoas negras foram mandadas de volta para a África (o livro põe como se elas nunca tivessem pertencido àquela sociedade). Só permaneceram algumas mulheres negras que já haviam passado pela menopausa e elas desempenhavam unicamente afazeres domésticos (varrer, passar roupa, limpar, cozinhar, etc.). Essas poucas mulheres negras, as empregadas domésticas, receberam o nome de Marta no livro (referência bíblica aqui de quando Jesus conhece as duas irmãs: Maria e Marta, a partir daí você já tira...). Todas as outras pessoas em Gileade eram brancas (os homens, suas esposas, as handmaids, etc.). O que algumas pessoas e sobretudo mulheres da comunidade negra denunciam, e essa é a crítica neste primeiro episódio de Dear White People, é que como aconteceu com as ativistas de feminismos radicais e utópicos da década de 1980 (EUA e Europa central), algumas mulheres e feministas nos dias atuais estão se apropriando da série e do livro para alertar que "olha, se nós não nos mobilizarmos, a nossa sociedade pode acabar ficando assim", isto é, SEM RECONHECER a história real da escravidão que colocou mulheres negras em outrora na mesma posição das handmaids de Gileade, entende? É por isso que na sátira a handmaid negra fala: Injustice in America. Who could've guessed? O Estado se apoderar da capacidade reprodutiva da mulher é uma premissa básica da sociedade moderna, infelizmente. E no caso da mulher negra escrava pior ainda, pois seu ventre serviu para ambas esferas privada (sustentabilidade populacional) e pública (mais força laboral). E você não precisa ir muito longe para ver isso, a nossa abolição da escravidão começou com as mulheres negras reivindicando a sua capacidade reprodutiva com a Lei do Ventre Livre. Enfim, o livro tem esse equívoco de apresentar esse cenário como um “futuro distópico” sem devidamente reconhecer o passado, pois conforme falei antes, mais do que uma ficção, são as narrativas reais de mulheres escravas do Sul dos Estados Unidos. [desculpem pelo textão].
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