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Transparent é feita de sutilezas, das questões mais filosóficas às mais práticas e cotidianas, ela se compõe de pequenos relances de uma realidade que deixa entrever milagres e dores. Inclusive, a responsabilidade da série sobre as questões socioeconômicas e como elas se apresentam a trans ricas e pobres podia se ausentar sem grandes críticas, pelo foco ser outro e abordar esse ponto já tão importante em qualquer cenário. Mas aí temos Darvina e seu problema nos rins que não pode ser melhor tratado porque ela não pode pagar por isso. Darvina e tudo que ela tem que enfrentar. Enquanto Maura está ali pra pegar seus brincos emprestados. E é ótimo ver como essa narrativa é consciente das diferenças entre as duas e como, apesar das duas enfrentarem batalhas árduas todos os dias, uma estar mais exposta que a outra às dificuldades que o mundo impõe.
Para que essas batalhas não sejam minimizadas de nenhum dos lados, enquanto Transparent expõe o corpo nu da mulher trans de forma tão aberta e natural através de Darvina, Maura é constrangida publicamente no aeroporto, simplesmente porque os funcionários não estão preparados para o seu corpo e sua identidade que fugiu das normas (então ela abre os braços e o que era pra ser uma pose normal para revista, se faz em uma analogia à crucifixão, dia depois dela dizer que espera ser recebida em Israel melhor do que o mais famoso pregador das minorias foi... que série fantástica, Jesus!). É horrível, mas então sabemos que ela é acolhida, homenageada e admirada nas suas salas de aula, nas suas palestras. Quando contar sua experiência, receberá a solidariedade que colabora para que erga a cabeça e enfrente os padrões. E é extremamente importante esse papel, é representativo e é louvável. Mas e a Darvina? O que caberia depois do constrangimento senão a revolta quase solitária? Cada vez mais sou grata por essa série e toda a sensibilidade que ela faz emanar, percebendo que o “outro” afinal, não é um só, não é homogêneo e que entre a faceta de uma diferença há ainda mais camadas.
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