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eu só queria deixar esse texto (não sei a autoria) para quem ainda aponta o dedo e esnoba Joan Crawford. Quem achava que o foco nela era porquê Ryan "baba" Lange. E mostrar toda a complexidade da coisa.
"Feud" é a vingança de Joan Crawford.
Como fã de Baby Jane e seus bastidores, eu esperei Feud por muitos anos. Esperei antes que ele fosse um projeto de verdade, esperei quando Ryan Murphy tentou fazê-lo como telefilme na HBO e celebrei quando o FX anunciou como minissérie. Só que eu queria ver Feud pelo mesmo motivo que fez Baby Jane ser um sucesso: é a chance de ver duas divas do cinema interpretando tipos decadentes. É a chance de ver Susan Sarandon ganhar um Emmy por brigar e falar coisas engraçadas. Oito episódios depois, Feud é um tiro doloroso de um jeito que ninguém esperava que fosse, porque além de ser tudo o que a gente queria que fosse, é uma série que tem algo a dizer. E diz das maneiras mais devastadoras possíveis.
Feud nos confronta com uma realidade ainda atual: a de que mulheres são jogadas umas contra as outras para atender a interesses de outros e mantê-las sem poder algum. Na reunião da Television Critics Association, muitos sugeriram a Ryan Murphy que abordasse rivalidades como Joan Fontaine e Olivia de Havilland, Britney Spears e Christina Aguilera, Madonna e Lady Gaga. Todas mulheres pressionadas contra outras mulheres. O universo de Baby Jane é rico o suficiente para mostrar uma variedade de situações, de mulheres tendo seus sonhos destruidos a mulheres destruindo os sonhos de outras mulheres, da atriz vaidosa à cineasta estreante - todas vítimas de um mesmo problema. Do mesmo machismo.
E o maior exemplo das duas coisas, dos sonhos destruidos à destruição de sonhos alheios, é Joan Crawford. Tem quem ache que a série focou demais nela e que Bette Davis perdeu o protagonismo que deveria ter, mas para mim essa é uma escolha narrativa incrível. Durante todos esses cinquenta anos, Bette foi a protagonista da história. Bette é perfeita. Bette é a atriz com dois Oscars. Bette é a maior atriz da história do cinema americano, Bette é a citada em Vogue e em Bette Davis Eyes. É óbvio que Bette Davis tinha seus problemas (e a série os aborda muitíssimo bem), mas desde o primeiro episódio da série é estabelecida a diferença fundamental entre as duas. Bette é a artista, Joan é a estrela. Bette é capaz de passar por cima dos conflitos e do esquecimento para conseguir um papel (mesmo que seja coadjuvando numa peça), Joan não consegue filmar uma cena sem carregar na maquiagem. Bette é durona, Joan é um poço de complexos e inseguranças. Joan Crawford é uma personagem muito rica e é muito bom que ela finalmente tenha voz.
Por décadas, a representação que a gente tinha de Joan era como a Mamãezinha Querida: um monstro furioso que batia na filha com cabides de arame. Feud não diz que Joan nunca bateu em Christina com um cabide de arame. Mas Feud diz que a vida é muito mais complexa do que a representação unidimensional que Faye Dunaway deu. Joan Crawford era complicada, autodestrutiva, terrivelmente deprimida. Se Joan Crawford era violenta com a filha são outros 500, todo artista tem uma vida íntima que nós nunca vamos conseguir acessar. Mas Feud é a vingança de Joan Crawford por finalmente mostrá-la por quem ela era: uma pessoa. Com falhas e tudo. E é pelos olhos de Joan que a gente vê Bette. Pelos olhos de uma admiradora que nunca deu o braço a torcer, de alguém tão desesperado pela validação da rival que foi capaz de boicotar o sonho da outra, de ganhar um Oscar. E quando Baby Jane diz no final do filme "você quer dizer que nós poderíamos ter sido amigas?", dói fundo na gente.
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